HPV, Papanicolau e prevenção do câncer de colo do útero (um guia simples, sem susto e com poder de ação)

Ângela Costa, Geriatra RQE 5267

3/27/20262 min read

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Se existisse um “chefão” por trás da maioria dos casos de câncer de colo do útero, ele teria nome e sobrenome: HPV (Papilomavírus Humano). A boa notícia é que esse é um dos cânceres mais preveníveis que existem — quando a gente junta vacina + rastreamento + acompanhamento certo.

1) O que é HPV (e por que quase todo mundo entra em contato)

HPV é um vírus muito comum, transmitido principalmente por contato sexual. Em muita gente, ele vai embora sozinho. O problema é quando a infecção fica persistente (não some) — aí pode causar alterações no colo do útero ao longo dos anos.

Tradução humana: ter HPV não é “sentença”. O risco aumenta quando ele permanece e não é acompanhado.

2) Vacina contra HPV: prevenção de verdade (daquelas que mudam história)

A vacina protege contra os tipos de HPV mais associados ao câncer do colo do útero e é uma das bases da estratégia global de eliminação da doença.

No Brasil, o SUS oferece a vacina e, além do público-alvo principal, houve estratégia recente de resgate vacinal para jovens 15 a 19 anos com prazo ampliado até 2026.

Mensagem direta: vacina é “cinto de segurança”. Você pode dirigir bem, mas é muito melhor estar protegida.

3) Papanicolau: para que serve (e o que ele NÃO faz)

O Papanicolau (exame citopatológico) não “pega HPV” diretamente. Ele identifica alterações nas células do colo do útero que podem ser causadas pelo HPV e que, se tratadas a tempo, evitam evolução para câncer.

E sim: ele continua sendo seguro e eficaz, especialmente onde o teste de HPV ainda não está disponível.

4) Quando fazer o Papanicolau (rastreamento no Brasil)

A recomendação brasileira tradicional (INCA) é oferecer rastreamento para pessoas com colo do útero dos 25 aos 64 anos que já tiveram atividade sexual.

Em geral:

  • faz-se anual no início

  • e, após dois exames consecutivos normais, passa para a cada 3 anos

Importante: o Brasil também caminha para incorporar o teste de DNA-HPV de forma gradual em alguns cenários, o que pode mudar o intervalo e o fluxo conforme a rede e as diretrizes locais.

5) “Se eu tomei vacina, ainda preciso fazer Papanicolau?”

Sim. A vacina reduz muito o risco, mas não substitui o rastreamento. O combo campeão é: vacina + rastreio + seguimento.

6) Sintomas de alerta: quando não dá pra esperar o exame de rotina

Procure avaliação se houver:

  • sangramento após relação sexual

  • sangramento fora do período menstrual ou após a menopausa

  • dor pélvica persistente

  • corrimento diferente e persistente

Esses sintomas não significam câncer automaticamente, mas significam: “vamos investigar direito.”

7) O que mais ajuda a prevenir (além de vacina e exame)

Alguns fatores aumentam o risco de persistência do HPV e de evolução:

  • tabagismo

  • imunossupressão (ex.: HIV)

  • falta de rastreamento por muitos anos

A estratégia global 90–70–90 da OMS deixa isso bem claro: vacinar, rastrear e tratar lesões precoces é o caminho para eliminar o câncer de colo do útero como problema de saúde pública.

Checklist rápido (pra vida real)

✅ Vacina HPV em dia (ou resgate, se aplicável)
✅ Papanicolau/rastramento regular (25–64, conforme orientação)
✅ Não “sumir” depois de um exame alterado (seguimento é metade do sucesso)
✅ Parar de fumar (se fuma)
✅ Procurar avaliação se tiver sangramentos fora do padrão